Bright (2017)│Crítica

Porque fantasia não precisa sempre estar acompanhada do termo medieval

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Quando este filme original da Netflix foi anunciado eu fiquei bastante animado; sempre achei David Ayer um nome interessantíssimo para dirigir e roteirizar o filme do Esquadrão Suicida, mas o longa acabou se mostrando um fracasso no quesito “bom filme”. Entretanto era quase unânime que ele não teve a possibilidade real de exercer sua função como diretor e roteirista, Ayer havia sido totalmente controlado pelo estúdio. Seu roteiro de Dia de Treinamento é simplesmente espetacular e que mostrava o talento dele para histórias policiais. Com a chegada de Bright ele tem mais uma vez a chance de mostrar que é um bom contador de histórias urbanas e com agentes da lei.

Num mundo onde orcs, humanos, elfos e outros seres típicos dos contos fantásticos coexistem num ambiente urbano, temos uma sociedade cheia de segregação. Os elfos tomam conta das estruturas do governo e do capital, enquanto os homens funcionam como mão de trabalho que segrega os outros grupos. Orcs por sua vez são completamente colocados de canto e forçados a viver na periferia social deste mundo. Mas tudo parece mudar quando um orc finalmente entra para o serviço da policia da cidade de Los Angeles, mas é justamente ele que vai acabar se envolvendo com uma arma mágica de poder inimaginável.

É muito difícil dizer que o conceito deste universo não é incrivelmente interessante e instigante. É como se os típicos mundos de fantasia medieval tivessem evoluído até chegar ao mundo urbano e contemporâneo que temos hoje. Algo como se O Senhor dos Anéis evoluísse para um universo cheio de cidades, empresas e tudo que entendemos como “o presente”. Já no início temos alguns grafittis que nos localizam neste mundo fragmentado e cheio de clãs, raças e diferenças sociais. Logo entendemos que esta é uma história que fala sobre preconceito e como a sociedade acaba se moldando em cima deles.

As atuações são bastante cativantes. Will Smith está fazendo o papel que se tornou especialista: o pai de família que só quer fazer o seu trabalho e voltar para seus filhos. Aqui ele é o típico arquétipo do Roger Murtaugh nos filmes de Máquina Mortífera, só que muito mais sombrio. O personagem de Ward é aquele policial perto de se aposentar e que está um pouco cansado do perigo constante de seu trabalho. Clichê, porém o tipo de clichê que sempre acaba cativando, principalmente com o carisma de Will.

Seu parceiro orc é interpretado por Joel Edgerton, que está ótimo. Seu personagem necessita de uma enorme quantidade de maquiagem. Mesmo assim ele consegue atuar com os olhos e sua voz trabalha em várias nuances. Um personagem igualmente cativante em relação ao policial cansado, pois o orc Nick é altruísta num mundo que o odeia. Os humanos não o veem como alguém digno de ser um policial, enquanto os orcs acreditam que ele é um traidor da própria raça. Mesmo assim ele batalha para manter sua ética e sua moralidade num mundo que parece fazer de tudo para destruir esses valores. É impossível não torcer por ele.

Se por um lado nós temos um trabalho de maquiagem muito bom, os efeitos especiais não são lá tão interessantes, mas sinto que Ayer (como diretor) tinha consciência disso e tenta utilizar esses efeitos com parcimônia. A Netflix já se tornou conhecida por não ter os melhores efeitos especiais e este filme não é diferente, mas não é nada que salte aos olhos devido uma péssima qualidade. Compõe os momentos em que são necessários e sai de cena quando não é necessário. A maquiagem é algo que realmente chama a atenção. A direção de Ayer trabalha bem esses elementos. Sua ação é bastante interessante e consegue fazer movimentos simultâneos e, ao mesmo tempo, dar uma boa noção do que ocorre quando temos mais de seis personagens se movimentando e lutando numa cena. Tirando uma perseguição de carros em específico, os cortes não são excessivos e permitem aproveitar os movimentos durante os momentos de adrenalina. O problema é que durante o segundo ato, quando a ação desenfreada começa, diversos pontos e atitudes dos personagens não fazem sentido com o realismo urbano que o filme tenta construir.

Este roteiro, escrito por Max Landis, consegue ser muito bom, mas ao mesmo tempo é cheio de problemas. É uma história que naturalmente é cheia de paradoxos justamente por misturar dos gêneros quase que excludentes: o filme de dupla policial e a fantasia medieval. Em diversos pontos esse é um universo que parece ser muito estranho e com elementos que simplesmente não se encaixam, enquanto por outro lado, é cheio de ideias incríveis e bastante originais no que diz respeito à criação de mundos.

Max faz uma história bastante consciente dos clichês que ela utiliza e tem a capacidade de brincar e subverter alguns deles. Acredito que é um filme que faz uso de diversos clichês dos filmes policiais, de forma até bem clássica, mas por outro lado parece tentar subverter e brincar com tudo que conhecemos previamente sobre a fantasia. As falhas acabam ficando no momento de explicar as intenções e objetivos de alguns antagonistas do filme e ficamos com a sensação que boa parte da ação está ocorrendo por um motivo que não faz muito sentido, principalmente no que diz respeito à vilã principal.

A personagem Tikka, a elfa que acaba formando um trio com os outros dois protagonistas, acaba sendo mais um Mcguffin* do que uma personagem em si. Num determinado ponto da trama ela começa a ganhar personalidade de forma bastante repentina. Ela acaba mais irritando devido a sua condição de constante desespero, que em determinado ponto nem parece fazer tanto sentido conforme a trama da mesma vai se revelando. Um determinado personagem no início do filme parece não ter nenhum sentido de existir além de gerar uma cena expositiva que acaba até se repetindo, provando-se inútil na trama. Na verdade essa trama possui varias pequenas repetições que são um tanto incomodas.

*MacGuffin (às vezes McGuffin ou Maguffin) é um dispositivo de enredo, na forma de algum objetivo, objeto desejado, ou outro motivador que o protagonista persegue, muitas vezes com pouca ou nenhuma explicação narrativa. A especificidade de um MacGuffin, normalmente, é sem importância para a trama geral.

No fim temos um clímax que parece não explicar o porquê de toda a ação, deixando a desejar. Entretanto, Bright continua sendo um filme intrigante devido ao universo que apresenta e aos protagonistas altamente carismáticos e interessantes. Com algumas revisões no roteiro seria um filme que poderia ter sido verdadeiramente incrível. Espero que venham algumas continuações trabalhando esse mundo que pode gerar tantas boas histórias. Bright acabou me lembrando como a fantasia pode ser um ótimo exercício criativo para olharmos para nosso próprio mundo e criar um olhar crítico sobre ele. Esse acaba sendo um filme sobre se despir dos preconceitos e aprender a repensar como lidamos com os diversos problemas sociais que batem a nossa porta todos os dias, mesmo que ele precise te colocar alguns orcs e elfas para te mostrar isso.


Bright

Nota

 

 

 

 

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Written by Raul Martins

Raul Martins

Viciado em mais coisas nerds do que deveria

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